É senso comum que a pessoa cega ou com baixa visão está muito mais propensa a derrubar copos, garrafas, pratos... e todos os objetos inanimados que estiverem à sua frente numa mesa. Na minha opinião, isso não funciona exatamente assim. A natural maior tendência de derramarmos as coisas é compensada pelo cuidado excessivo que procuramos ter para evitar tais vexames. De verdade, é muito constrangedor entornar alguma coisa na casa de alguém que você não tem muita intimidade, num restaurante, na casa de alguém que você tenha intimidade... Pensando bem, é sempre constrangedor. Todo mundo meio que te perdôa, "ele é cego", cochicham os que pensam que você também é surdo. E você tenta se desculpar, tirar a culpa da cegueira, mas, no final, você sabe que foi exatamente ela quem causou isso. Ou a sua falta de cuidado, mas nesse caso é melhor que os outros pensem que foi mesmo porque você não enxerga.
O que eu faço para tentar minimizar os riscos é estudar bastante o espaço da minha mesa. Sempre que colocam um copo de alguma coisa na minha frente, eu o procuro com a minha mão e o mudo de posição, sempre colocando-o na direção em que eu estou acostumado (no meu caso, atrás do prato à direita). Veja bem, no meu caso, o que não quer dizer que para todos os cegos será da mesma maneira.
E não dizem que o brasileiro só toma providência quando as coisas já aconteceram? Eu, não fugindo às origens, derramei um copo inteirinho de refrigerante sobre um teclado sem fio que eu tinha. O verbo "ter" ficou no passado porque, claro, o teclado nunca mais funcionou. A partir daí eu implantei a regra número 1 para o deficiente visual lidar com equipamentos eletrônicos: nunca (e nunca mesmo) deixar copos, seja do que for, perto de computadores, nem que seja só por um minutinho.
Mas tem vezes que nem todo o cuidado do mundo é suficiente. Como aconteceu comigo, quando decidi servir-me de refrigerante, na minha primeira refeição do ano de 2004. Acontece que a garrafa estava cheia, a espuma subiu demais e eu molhei consideravelmente uma parte do chão da cozinha. Peguei um pano, botei sobre o lugar em que o refrigerante havia caído e me levantei para lavar as mãos, resmungando que eu devia ter previsto que a espuma seria grande, etc, etc, etc.
Mas, quando voltei à mesa... Não sei dizer ao certo o que aconteceu, acho que a minha blusa meio que abraçou o copo, que entornou seu conteúdo sobre a toalha da mesa, outra parte do chão e, claro, sobre mim. Logo eu, que odeio derramar as coisas (fico com raiva de mim mesmo), protagonizo dois acidentes do tipo em menos de três minutos!
Nova parada para limpar tudo; dessa vez, foi preciso mais do que um pano de chão: eu tive que trocar de roupa porque molhei tanto camisa quanto short, além de ter sido obrigado a tomar um banho rápido, para me livrar do grude.
Depois, ao voltar para comer... Foi só eu sentar que plaft! (juro). Dei um soco no copo, que ainda estava cheio, encharcando a bandeja e a mesa de Coca-Cola (pronto, citei o nome do refrigerante).
No meu diário, encontro a seguinte anotação sobre o incidente: "Eu hein! Que zica! Fiquei meio com medo, tomara que esse não seja nenhum presságio para esse ano". Graças a Deus, 2004 não seguiu a tendência dos copos derramados, mas seguramente estou no Guinness Book de maior índice de derramamento acidental de copo por minuto. Ao menos, amenizando um pouco a situação, a única testemunha foi o meu amigo Felipe, com quem eu tinha intimidade suficiente para apenas rir do incidente, sem nenhum constrangimento. Bem, nem sempre é constrangedor. Às vezes ser cego é mesmo muito engraçado!
por Marcos Lima
Bengaladas:
* Agradeço ao carinho de todos na primeira coluna, que, graças a vocês, bateu o recorde de comentários do site (oito) e de leituras na primeira semana. Todas as sugestões foram anotadas e serão temas de próximas colunas. Sem a sua participação, esse espaço perde a função. Sigam comigo!
* Não percam neste sábado, a partir das 13 hs, na Record, o programa Esporte Fantástico, que exibe uma matéria feita comigo sobre o projeto Esquiando no Escuro. Para saber como foi a gravação ou mais detalhes sobre o programa, é só clicar aqui;
* volto a pedir pro pessoal cego me ajudar a fazer a coluna, enviando-me histórias, porque as minhas estão longe de serem infinitas.
O objetivo de Histórias de Cego é aproximar os nossos leitores do cotidiano das pessoas com deficiência visual. Sem ser ranzinza, a coluna pretende dar um peso menor à deficiência, trazendo os aspectos menos conhecidos da vida de uma pessoa que vive sem ver. As Dificuldades e soluções, superação de obstáculos, tecnologia, preconceito e, sobretudo, muitas histórias. Aqui você pode perguntar tudo o que sempre quis e que nunca teve coragem. Não se preocupe, não existe pergunta feia ou boba demais. Lembre-se que a maior causa do preconceito é o desconhecimento!
É por isso que contamos com a sua participação. Mande dúvidas, sugestões de assuntos, suas histórias, críticas, utilizando o espaço de comentários ou o e-mail marcos@urece.org.br
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Há alguns dias, um programa de televisão estava debatendo a inclusão das pessoas com deficiência nas escolas normais ou seja, aquelas que não são adaptadas às suas necessidades de aprendizado. Isso permite que as crianças com deficiência conheçam e convivam com crianças sem deficiência, em uma troca de experiências que pode ser muito boa para ambos os grupos. O programa só trazia mães de meninos e meninas com problemas mentais (alguns dos quais eu nunca ouvi falar), de modo que eu não vou entrar especificamente nesse mérito. Como o nosso papo aqui é deficiência visual, vou dar a minha opinião sobre o assunto no que tange a este segmento específico.
Ao longo de três dias do evento, mais de 200 pessoas visitaram o stand da associação
Estande da Urece atrai muitos visitantes no primeiro dia do Conotel 2010
Acompanhe a seleção brasileira de futebol para cegos no Mundial de Futebol para Cegos, que está sendo realizado na Inglaterra. E você pode assistir aqui ao vivo todos os jogos, incluindo os da nossa seleção, numa cortesia da Federação Japonesa de Futebol para Cegos, twitter @jbfa_b_soccer
Grupo A: Inglaterra, Espanha, Japão, Coréia do Sul e Colômbia;
Grupo B:wBrasil, China, Argentina, França e Grécia.



kkkkkkkkkk!!!!!
Escutei até o fundo musical dessa história, sabe aquelas melodias circenses??
Bjs, Jana.
É por isso que eu não bebo refrigerante. Não tenho nenhuma comprovação científica a respeito, mas estou certa de que copos de chope e cerveja são menos propensos a este tipo de acidente. Rsrsrs
Olá, Marcos!
Soube um pouquinho do Urece, através da Thaís Castro.
Hoje vi um post dela no Twitter e resolvi vir conferir... Bem, vcs já estao nos meus 'Favoritos'. Amei a história e a idéia do site como um todo!
Gde abraco, Camila.
Marcos,
Derrubar copos em teclados, mesas, etc..., realmente não é esclusividade de cegos, onde trabalho, já presenciei muitos copos derramados sobre teclados, mesas, tapetes, cadeiras, etc.. e olha que as pessoas enxergam até demais por aqui.
A propósito sou a "Claudinha", acho que vc já ouviu falar de mim, trabalhei e trabalho, hoje em Setores diferentes, com a sua mãe. Já te acompanho há muito tempo, por trás dos bastidores. Realmente, em dá muito orgulho em te conhecer e ficar na torcida pelo seu SUCESSO!!! Parabéns!!
marcos, você não tem idéia de como estou me divertindo lendo suas histórias!!!
Não sei direito, mas acho que quando você veia a Valença minha irmã não estava aqui e cara... ela é tão desastrada que pareceu que eu tava lendo uma história dela!!
beijao
Tenho certeza de que esta coluna ainda nos renderá muitas histórias curiosas, diferentes e (por que não)engraçadas como essa! Parabéns!
Ainda bem que 2004 não seguiu a tendência dos copos derramados mesmo!
Já anotei essa: "atrás do prato à direita". Vou ver se a sua dica funciona pra quem enxerga também porque semana passada me candidatei a tomar seu lugar no Guinness! rs
Todo mundo derruba copos mas ninguém conta assim tão bem quando vc! Parabéns pelo post, amigão!
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